2 Oct 2017

Soulless city

De regresso à cinzenta Londres e a um escritório ainda mais silencioso que o normal. Mal tinha pousado a mala, o meu director veio ter comigo e pediu-me para ir com ele à sala, fecha a porta diz-me, "infelizmente tenho más notícias, o Matt faleceu". O que? O nosso Matt? Matt era o nosso engenheiro mais novo. 25 anos de idade. Suicidou-se. O que pode levar um jovem tão novo, bom aspecto, muitíssimo educado e reservado, saudável, a cometer suicídio? Uma tragédia e estou chocado. Ainda na semana passada tinha estado a fazer um trabalho com ele e gostava imenso dele. Porquê Matt?
Nesta empresa já vão 3 suicídios. Agora dizem os colegas, porque é que ele nunca falou de algum problema? podíamos ter ajudado. E eu digo cá só para mim, mas alguém nesta terra pára para ouvir e se interessar por alguém? Trabalhamos juntos à dois anos e meio, que sabem vocês de mim? Encontramo-nos na maquina do café à segunda-feira e perguntam "How was the weekend? What did you do?", à sexta-feira dizem "Any exciting plans for the weekend?", mas se demoras mais de 15 segundos a dizer os teus planos ou o que te preocupa, já estao com a chávena do café na porta da cozinha, na realidade estao pouco interessados em ti. Aqui a educação e simpatia é mais cultural que emocional ou sentida. Uma terra onde toda a gente corre apressada do metro para o comboio, a ganhar dinheiro e quando estão juntos é nos Bares aos berros e de copo de cerveja na mão. De auscultadores na cabeça correm de um lado para o outro, desconfiados se alguém caminha demasiado junto, que desvia o olhar ao menor contacto, que se empurra para entrar primeiro no metro, que finge dormir ao ver senhoras em pé para não lhes dar o seu lugar. Esta é um terra de fachada, sem alma, de robots, onde 12 milhões se cruzam todos os dias sem se conhecer. E depois perguntam porque nunca disse ele nada? E vocês, ouviriam?


O Matt é o primeiro rapaz alto da direita na segunda fila desta foto que tirei uns meses atras quando fomos visitar a obra do Westfield em que trabalhamos juntos.

.
PS. Hoje, depois do trabalho, a equipa foi toda para o Pub beber em memoria do Matt. Se é tradição, confesso que desconhecia. 

5 comments:

Anonymous said...

Que horror!

Anonymous said...

Já estou a ver que tudo é desculpa para beber...
Trabalhei com ingleses, nunca ouvi tal coisa.

Luz Maia said...

Muito eu aprendo contigo.

É mesmo uma tradição, não sabia.

Por curiosidade, aqui fica um link de uma recolha de fundos com essa prática: https://www.justgiving.com/campaigns/charity/westcumbria/hospiceathomewestcumbriathirstyforthirty

Anonymous said...

A viver em UK há cinco anos revejo-me completamente no que disse. Todos tão educados, mas muito frios e distantes.
Conquistam-se amizades a pulso e julgo que dificilmente no trabalho.
E sim é uma tradição de cá celebrar a vida de quem parte num pub ou num jantar após o serviço fúnebre.

Elisabete

Luz Maia said...

É muito difícil para quem privou de perto.
Força!