9 Jun 2017

NÃO GOSTO DA THERESA


Aqui partilho um fantastico artigo de Miguel Moreira Rato, director de comunicacao da Tech For All, e que reside em Londres. Porque diz exactamente o que eu penso e digo, mas diz melhor.

Hoje há eleições aqui na ilha. Theresa May vai ganhar, mas tenho esperança de que não seja uma vitória esmagadora. Gostava que apanhasse um susto. Para deixar de uma vez por todas de brincar com milhões de pessoas que estão em compasso de espera há quase um ano.
Faço parte de um grupo de pessoas que sempre olhou para o Reino Unido de baixo para cima. Somos muitos, embora poucos o reconheçam. Sempre tive aquela visão meio subserviente de sermos infinitamente piores que os ingleses. Em tudo. Quando vim viver para Londres depois de anos a ouvir “lá fora é que é bom”, foram várias as vezes que deixei outros falar primeiro só por achar que iam ser melhores. Por alguma razão o Reino Unido é um dos países mais ricos e poderosos do planeta. Por alguma razão os escritórios centrais das grandes multinacionais são quase todos aqui, por alguma razão Oxford e Cambridge são nesta ilha e não noutra qualquer.
É mentira. Somos tão bons ou melhores, se é que comparações deste tipo servem para alguma coisa. E eles, os ingleses, também às vezes conseguem ser tão maus ou piores.
Política. Uma vergonha. Hoje são as eleições e é tudo uma vergonha. Vai ganhar uma senhora desengonçada, antipática, que se veste como se fosse centenária e alterna entre pendurar ao pescoço correntes de presidiário ou bolas para a árvore de Natal. E, verdadeiramente relevante e grave, uma senhora que está a levar a ilha para mares longínquos à sombra de uma ideia de soberania que só ela e os seus seguidores parecem defender. Uma visão fechada, conservadora, ultrapassada e que cheira a mofo. Tal como os adereços.
Theresa May chegou a Downing Street no ano passado sem que ninguém tenha votado nela e depois de 7 anos à frente do Ministério do Interior. Foi aí que, aliás, tomou a decisão de diminuir em 20.000 o número de policias nas ruas. Em vésperas de eleições, depois de três atentados em solo Britânico em menos de três meses, e em plena campanha eleitoral, veio arrepiar caminho e dizer que o número de policias armados voltou a aumentar em 2015. Conveniente. Ainda assim ficámos a saber que um dos terroristas responsáveis pelo atentado de sábado passado entrava e saia deste país as vezes que queria, enquanto as autoridades italianas avisavam que não era flor que se cheire. Estaremos tão seguros como nos garantem?
May é a cara do Brexit. Mas nem isso soube fazer bem. Andou a apregoar que o Reino Unido iria ficar mais forte fora da União Europeia e a achar que – lá está a obsessão pela ideia de um Reino Unido soberano – chegava a Bruxelas e conseguia liderar as negociações. Pelo contrário, não foram poucas as vezes em que a vimos sozinha, sem ninguém lhe dar importância. Não percebeu que o Brexit está agora à mercê do que os 27 decidirem e que já não depende dela.
O referendo foi há praticamente um ano e até agora nada, nada aconteceu. Até Março, a desculpa era que estava a preparar a pasta. Em Março lá carregou no botão, mas uma vez mais nada aconteceu. Será soft? Será hard? Ninguém sentiu nada. A prioridade era fazer a jogada estratégica de convocar eleições para assim poder receber um apoio estrondoso - maioritário – no dia 8 de junho para poder levar o Brexit em frente como bem entendesse. Entretanto o relógio não para, e há mais de 60 milhões de pessoas à espera de conhecer o seu destino enquanto a senhora brinca aos estrategas.
Pior. May é inconsequente. A pouco mais de 24 horas das eleições veio dizer que quer a mudar as leis que protegem os direitos humanos se isso ajudar a combater o terrorismo. Será que sabe o que está a dizer? Além do Brexit, agora quer abandonar a Convenção Europeia de Direitos Humanos?
Mas May é uma mulher de sorte. Hoje em dia só há dois partidos relevantes neste país e o líder do outro, trabalhista, tem um discurso que congelou no tempo. Depois há um terceiro, liberal, aberto ideologicamente, que devia estar a dar cartas mas não consegue porque o seu líder também deixa muito a desejar. Pena. Há ainda os partidos regionais e o UKIP, que não merece sequer uma linha deste texto. Ah, e os verdes, que não passam dos 3%.
Estes anos em Londres, mas sobretudo esta primeira ministra e toda a fanfarra que envolve estas eleições trocaram-me as voltas. Dei por mim a olhar de cima para baixo. E não me sinto muito mal com isso.

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